Terehell

quarta-feira, novembro 12, 2008

Terra de Ninguém

Lá, do outro lado do espelho, o vento não pede licença pra descer vários metros abaixo do solo e congelar o ar dentro do metrô. Os pombos caminham desenvoltos em meio às pessoas, bem mal-acostumados a ganhar uma migalha ou outra. Disputam espaço com os mendigos, enrolados em grossos cobertores, falando sozinhos, puxando cachorros, se algum deles tem uma estória, já esqueceu. Dormem a qualquer hora do dia ou da noite, embaixo das marquises pra se proteger da chuva, que cai sobre todo mundo, seja eu, mero viajante, ou sobre Marcelo Rubens Paiva na sua cadeira-de-rodas motorizada. Ele tem pressa, eu tenho pressa, a Avenida Paulista inteira tem pressa; e o céu, eternamente embaçado, abre o olho por cerca de três minutos no final de uma tarde enlameada de sábado; e, tímido, o sol dá uma espiadinha e some. A Rua Augusta tem pressa, Clemente Nascimento tem pressa de atravessar no sinal e sumir dentro da portinha do Pedaço da Pizza. Um garçom cearense tem pressa de me servir enquanto os travestis tem pressa de irem se montar em casa pra mais tarde disputarem espaço com os alternativos vintage e a deselegância discreta das paulistanas. O bilheteiro tem pressa de dar troco e o baladeiro perde a paciência. Em meio a tanta pressa, somem a educação e a gentileza. O único zen ainda nesta cidade é Lô Borges, que assiste um show próximo a mim numa segunda à noite (mas ele é mineiro, não vale...). Até os seguranças tem pressa de pôr as pessoas pra fora. O coelho de Alice tem pressa, e do outro lado do espelho, essa terra é de ninguém.